Hoje eu não estava num dos meus dias, isso era uma certeza. Continuava a não entender o porquê de eu ser assim, diferente, mas não tinha tido coragem de contar a alguém. Sentia-me vazio, sem rumo e, acima de tudo, sozinho. Nunca tinha encontrado alguém que fosse como eu, e já não tinha assim tantas esperanças que isso chegasse a acontecer. Porquê? Porque eu sou um anormal, alguém que nunca deveria ter nascido.
Estava a passear pelo recinto da minha escola, de «phones» postos, a ouvir a minha música favorita, quando vi um grupo de rapazes a cercar um dos meus melhores amigos, rindo-se de algo que ele houvera dito. Caminhei até lá, tentando perceber o que se passava.
- Vocês riem-se de eu ser diferente, mas eu rio-me de vocês serem todos iguais - ele disse, citando a sua frase favorita do Bob Marley.
- Ei, tenho muito gosto em ser igual a todos eles; pelo menos não ando por aí a suspirar por um rapaz - disse um dos matulões que cercava o Rodrigo.
Quando ele disse aquilo, o Rodrigo já me havia visto, e olhava para mim penosamente, vendo que eu estava assustado; o problema é que ele não sabia o porquê de eu estar assim.
Corri dali para fora, esbarrando em várias pessoas no caminho. Dirigi-me para um lugar que Rodrigo me houvera mostrado uma vez, sabendo que ninguém, para além dele, me encontraria ali. Sentei-me no chão, encostando os joelhos ao peito, de cabeça baixa, e com os braços enrolados à sua volta.
Estava demasiado confuso para conseguir conter as lágrimas; senti-as escorrer pela minha face, lavando qualquer vestígio de alegria que se pudesse encontrar nela. Não entendia como é que ele me escondera tão bem o facto de ser... homossexual. Pensei durante uns momentos, e as lágrimas deixaram de cair, apesar da minha face continuar tão húmida como quando elas caíam. Apesar disso, as lágrimas foram substituídas por um trémulo sorriso, cheio de esperança.
Para ele ter olhado para mim daquela maneira, anteriormente, só podia passar-se uma coisa: ele gostava de mim. Dar conta deste facto fez o meu sorriso tremer ainda mais, não sabendo eu se deveria estar feliz por provocar esse efeito nele, ou assustado por tudo o que passaria na escola, se assim fosse.
Ouvi algo mover-se, perto de mim, e levantei a cabeça, já sem sorrir. O que vi horrorizou-me: Rodrigo chorava, olhando-me tristemente; ele tinha um olho negro, e o seu lábio sangrava. Vê-lo assim custou-me demasiado, e eu não consegui conter-me.
Levantei-me, sem nenhuma certeza sobre o que iria fazer, e caminhei lentamente até ele; quando estava perto o suficiente, abracei-o carinhosamente.
- Está tudo bem, Rodrigo... Calma - sussurrei ao seu ouvido, ternamente.
- Mas, Diogo, eu sou um anormal... - Respondeu-me, chorando convulsivamente contra o meu ombro.
- Não, não és. Tu não tens culpa; simplesmente aconteceu - repliquei, calmo.
- Aconteceu? Eu estou apaixonado por ti, caramba! - Ele disse, exaltado, mas sem nunca me largar. - Como é que consegues estar assim tão calmo e tão perto, sabendo disso?
Não tinha uma resposta coerente para aquela pergunta; era difícil contar-lhe. Então, em vez de tentar pôr em palavras algo demasiado complicado, afastei-me para olhar a sua face. Os seus belos olhos verdes estavam rodeados de cor-de-rosa, por causa de ter estado a chorar; o seu cabelo loiro revolto movia-se lentamente com a brisa que passava; os seus lábios formavam uma linha recta perfeita, da qual eu não conseguia desviar o olhar.
Olhei-o nos olhos, novamente, e percebi que ele não entendia o que eu estava a fazer. De modo a esclarecê-lo, aproximei-me lentamente, avisando-o com o olhar. Ele estava congelado, pelo que a minha tarefa estava facilitada, apesar de todo o meu nervosismo. Fechei os olhos, e beijei suavemente os seus lábios lisos e perfeitos. Eu não sabia o que fazer mais e, visto que ele não correspondia ao beijo, afastei-me.
Ambos permanecemos no mesmo lugar, a apenas um pulso de distância, olhando nos olhos um do outro.
- Diogo, porquê? - Ele perguntou, e eu não consegui perceber se a sua voz suave e captivante transmitia alegria ou choque; talvez transmitisse um pouco de ambos.
- Porque eu gosto de ti, Rodrigo. Desde que nos aproximámos mais, que eu sinto algo diferente por ti do que uma grande amizade. Quando estás por perto, sinto-me completo; quando estás em apuros, apetece-me salvar-te; quando estás triste, tenho necessidade de matar quem te tenha magoado; quando estás longe, só quero desaparecer e fugir para bem perto de ti... - Disse-lhe, finalmente confessando-lhe o meu amor por ele.
- Porque é que nunca me contaste? - Perguntou, e eu senti a sua respiração fresca atingir os meus lábios secos.
- Tinha medo que te afastasses de mim; que fugisses e nunca mais voltasses - respondi, olhando para os meus pés, escondendo dele os meus olhos tristes.
Apesar disso, ele levantou-me a face, puxando-a pelo queixo, obrigando-me a olhá-lo nos olhos.
- E já não tens? - Perguntou, sorrindo ligeiramente.
- Não.
Desta vez, foi ele quem me beijou. Começou por ser só um raspão entre os nossos lábios, mas ambos queríamos mais; ele puxou a minha face mais para ele, agarrando o meu cabelo, enquanto eu agarrei a sua cintura, de maneira a colar os nossos corpos. Os nossos lábios entreabriram-se, e o seu hálito penetrou na minha boca, dexando-me sequioso; nessa altura, ele despenteava completamente o meu cabelo comprido e negro, entusiasmado pelo momento.
Ambos terminámos o beijo incapazes de respirar, mas sorrindo mutuamente.
- Eu amo-te - ele sussurrou, olhando fundo nos meus olhos cinzentos.
- Eu também te amo - respondi, enquanto ele me acariciava a face.
Levei a minha mão direita à sua face, tocando levemente na sua maçã do rosto; depois, passei-a pelo seu cabelo, e reparei que um grande número do seu cabelo tinha ficado preso a ela, e ele nem sequer tinha reparado. Não lhe disse nada acerca desse facto, para não o assustar; no entanto, eu tinha curiosidade acerca de outro facto.
- Há quanto tempo gostas de mim? - Perguntei, sorrindo travessamente.
- Há dois anos... - Ele respondeu, duvidoso.
- E porque só disseste agora? - Questionei-o, agarrando uma das suas mãos.
A sua reacção surpreendeu-me: em vez de me responder, ele olhou para longe, virando a cara e mordendo o lábio.
Com a mão que tinha livre, virei o seu rosto para mim, e vi que ele chorava, magoado.
- Rodrigo? - Questionei, alarmado e, acima de tudo, preocupado.
- Eu só tenho mais uma semana de vida - ele respondeu, abraçando-me.
- O quê? - Disse-lhe, chocado. - Uma semana? Porquê?
- Eu... eu tenho cancro...
- Cancro? - Agora, era eu quem chorava.
Ele não respondeu; limitámo-nos a ficar abraçados, chorando com aquela notícia.
Aquela semana passou vertiginosamente rápido, deixando-me num caco. Expliquei à minha mãe o que se passava, e ela deixou-me faltar à escola, para ficar com Rodrigo no hospital. Ele só tinha uma tia a cuidar dele, pelo que, na maioria das vezes, eu é que ficava a seu lado, pois a sua tia estava demasiado destroçada para estar sempre com ele. Ela sabia que eu e ele namorávamos, e nunca se importou com isso; na verdade, até agradeceu esse facto, pois ela adorava saber que o seu sobrinho único estava ao lado de alguém que o amava verdadeiramente.
Todos os dias ele tinha quimioterapia, pois os médicos, tal como eu, não desistiam dele. Ele tinha apenas dezasseis anos (assim como eu), era demasiado novo para morrer. Eu não ia deixá-lo partir assim, antes mesmo de viver as melhores experiências da sua vida.
Ele já tinha aguentado mais um dia do que o esperado, deixando os médicos esperançosos.
Mais uma vez, ele saiu da quimioterapia, e eu estava à espera dele no quarto. A sua face estava diferente; ele já não tinha aquele aspecto jovial de antes. Até o seu cabelo tinha desaparecido! Os seus olhos encontravam-se sem brilho, e os seus lábios estavam secos. Apesar de tudo isso, eu continuava a amá-lo; não me importava que ele estivesse tão fraco que nem se aguentava em pé, eu continuava a amá-lo, porque, por mais diferente que ele estivesse por fora, por dentro ele continuava a ser o mesmo rapaz por quem eu me tinha apaixonado.
A enfermeira deitou-o, e eu vi que ele me olhava tristemente.
- Diogo, vira-te para o outro lado, por favor. Eu estou feio, sem cabelo, fraco... Não aguento que me vejas assim - ele disse, chorando.
Eu levantei-me, e, determinado, aproximei-me mais dele.
- Nem penses; não me importa o teu aspecto, porque eu amo-te de qualquer maneira - respondi, olhando-o nos olhos.
Ficámos calados por alguns momentos, e eu vi o meu reflexo nos seus olhos: o meu cabelo estava confuso, os meus olhos estavam vermelhos, e a minha boca fazia um trejeito involuntário para a direita, da minha tristeza. Acariciei a sua face frágil, e senti-o ficar mais fraco, enquanto fechava os olhos.
- Estás bem? - Perguntei, nervoso; o meu coração batia com força, como se antecipasse algo de mau.
- Estou com sede... Podes dar-me um pouco de água? - Pediu, e eu dei-lhe o copo imediatamente; ele bebeu e entregou-me o copo, descansando o seu rosto na minha mão. - Desculpa, estou só cansado, por causa da quimioterapia...
De repente, ele começou a deixar de respirar, e eu ia chamar a enfermeira, quando ele me chamou.
- Não... eu estou farto de tudo isto, Diogo; deixa-me morrer, e ter algum descanso... Volta para aqui - ele pediu, e eu fui, entre lágrimas.
- Chama a minha tia Maria, e pede-lhe ajuda ao arrumar as minhas coisas... Fica com o que quiseres - ele disse, fraco, e eu aproveitei o momento em que ele se calou para beijar a sua testa. - Se vais dizer adeus hoje, peço-te que o faças de verdade... porque a parte mais difícil disto é deixar-te.
Eu chorava convulsivamente, mas, mesmo assim, beijei-o na boca, desejando sentir os seus lábios uma última vez.
Quando me afastei, a sua máquina de suporte à vida deu o seu último «beep», matando-nos aos dois.
baseado na música 'Cancer' dos My Chemical Romance.
"If you say goodbye today, I'd ask you to be true...
'Cause the hardest part of this is leaving you."
5 comentários:
que bunito filha ^^
ahah eu escritor optimo, essa é boa xD
amote filha
adorei o texto amor , está lindo (:
ly <3
A tua pequena história matou-me por completo. Não imaginas a emoção que a história transmite.
A frase dos MCR e a última frase do texto são completamente perfeitos...
ly <33 , e continua a escrever textos com a mesma qualidade deste... podes crer que vou ficar viciado.
Pedro Santos :')
está super lindo amor *o*
amei muito!
és linda, minha escritora favorita *-*
amo-te melhor amiga <3
:O Não tenho palavras. Adoro, tá lindo. Transmite tanta realidade, acho que todos nos conseguimos pôr no papel de cada uma das personagens. Até estou arrepiada. ADOREI.
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